CORTI, Ana Paula. Violência e indisciplina no cotidiano da escola pública : jovens espectadores, vitimizados e agentes de agressões. São Paulo, 2002. p. 222-8. Dissertação (Mestrado em Sociologia) Faculdade de Ciências Sociais – Universidade Federal de São Carlos
A importância dos grupos etários no interior da escola
Nossa pesquisa evidenciou a importância dos diferentes subgrupos etários na escola, aqui apresentados em termos do ensino fundamental (adolescentes) e do ensino médio (jovens), para a compreensão da violência em ambiente escolar. É preciso considerar a juventude na sua multiplicidade etária, já que esses diferentes momentos, embora possam existir aspectos comuns a essa fase da vida como um todo, encerram formas distintas de agir e pensar, propiciando a construção de experiências muito diferentes entre si. Vimos ao longo da descrição das experiências juvenis que há um envolvimento maior dos alunos do ensino fundamental nas redes das agressões, seja como vitimizado seja como agente, o que converge com outros estudos realizados em diferentes países. Ao falar em violência em ambiente escolar em termos de experiências, é preciso falar nas diferenças entre adolescentes e jovens.
As tendências, muito próximas, apontadas pelas experiências de vitimização e de prática de agressão, mostram que elas caminham juntas. Entre a condição de vitimizado e a condição de agressor não há um abismo que permita estabelecer perfis claramente diferenciados e opostos. Mas há algumas nuances importantes, que dizem respeito à maior proximidade dos agentes nos circuitos da violência e também à sua maior propensão para utilizar a força na definição de situações conflituosas. Mesmo assim, as práticas destes jovens não se constituem como comportamentos delinqüenciais, estando mais próximas de um tipo de sociabilidade agressiva potencializada por diversas circunstâncias da organização escolar, sendo a mais importante o isolamento etário dos adolescentes no período da tarde e a desresponsabilização da escola e dos profissionais em relação à socialização desses adolescentes. Isto não quer dizer que o comportamento dos agentes não possua pontos comuns em relação a uma “cultura da delinqüência”, eles aparecem sobretudo no que tange aos atributos da coragem e a um ethos machista. Mas o sentido predominante do engajamento dos adolescentes em condutas violentas se deve à necessidade constante de driblar o próprio medo e insegurança através da negação desses sentimentos e de uma prática ofensiva frente a situações que os desnudam. A prática dos agentes aparece associada a um tipo de gestão individual e particularista de uma insegurança que se inscreve no centro da experiência atual da juventude pobre, uma forma de gerir uma conjuntura existencial difícil, não só em função da crise social e econômica, mas sobretudo em função da dissolução dos vínculos intergeracionais tradicionais (a questão da autoridade) e da fragilidade do processo de socialização, frente à qual os sujeitos devem, de forma cada vez mais autônoma, construir suas experiências e sua identidade social(1). Esta “construção de si mesmo” parece particularmente “pesada” e angustiante para os adolescentes do ensino fundamental. Quanto à experiência de vitimização, ela se apresenta amplamente disseminada na escola, pelos 62,9% dos alunos que declararam ter sofrido alguma agressão. Chama atenção a capacidade dos jovens de se mostrarem sensibilizados pela violência sofrida, mesmo que ela seja uma “falta de respeito” ou uma agressão verbal. Não observamos uma “banalização da violência” no que se refere à forma como os jovens a percebem. Este dado se contrapõe a um discurso que se coloca fortemente no debate sobre a violência, de que nas regiões e espaços mais empobrecidos, o contato cotidiano com a violência nas suas mais diferentes manifestações, faria com que as pessoas desenvolvessem uma acomodação em relação à ela, até mesmo em relação aos eventos mais sangrentos e brutais como os homicídios. O que encontramos foi, ao contrário, uma grande sensibilidade e sentimento de indignação em relação as mais variadas situações e, sobretudo, grande sensibilidade à violência.
A agressão geralmente parte dos próprios alunos e se desenrola principalmente na sala de aula. Para os alunos do ensino médio, uma parte importante das agressões provém dos professores, 18,3% se declararam agredidos por eles. Mas como compreender o envolvimento maior dos adolescentes do ensino fundamental nas redes de violência? Primeiramente é preciso dizer que no grupo dos adolescentes predomina a violência interativa entre pares e a indisciplina. Estes estudantes, sobretudo os de 5ª e 6ª séries, sofrem uma brusca mudança ao deixarem o 1º ciclo de escolarização. Ao invés de um único professor, eles passam a ter vários docentes para as várias disciplinas, cujas práticas e exigências variam. A proximidade e o vínculo afetivo que marcavam a relação com a professora polivalente (não à toa chamada de “tia”) dá lugar a uma relação mais distanciada com os vários professores. Cada um deles se concentra nos conteúdos de sua disciplina específica e a dimensão formativa do aluno no sentido da socialização se enfraquece. Para os professores, há um pressuposto de que a socialização primária das crianças, na família e na escola, seria suficiente para a interiorização integral do papel de aluno. Mas isso não se observa. Diante da complexificação da vida social, a família não só deixa de manter o monopólio da socialização como também apresenta dificuldades para levá-la a cabo.
Ao se desobrigar da dimensão relacional e dos comportamentos, a escola acaba sobrecarregando os adolescentes com uma autonomia excessiva, a partir da qual eles devem construir suas experiências e sua identidade. Neste contexto de distanciamento do mundo adulto, os adolescentes são levados a construir sua experiência a partir das relações com outros adolescentes e isso não só porque se trata de uma característica própria dessa fase da vida, mas principalmente porque não há uma relação intergeracional significativa. A “omissão” do mundo adulto parece ter efeitos dramáticos para adolescentes, que não possuem condições de gerir sua própria experiência em moldes tão autônomos. Eles vivem esta autonomia de forma quase autodestrutiva. Assim, no ensino fundamental, a “desinstitucionalização” (DUBET & MARTUCCELLI, 1996, DUBET, 1998) da escola gera uma tensão mais agudamente sofrida pelos alunos, na medida em que os adolescentes têm maiores dificuldades de articular as diferentes lógicas sociais na construção de sua identidade. Ao mesmo tempo, a construção de uma experiência adolescente na relação com seus pares freqüentemente se choca com a cultura e organização escolar. No caso dos alunos do ensino fundamental, há muito mais uma necessidade, não satisfeita pela escola, de apoio e condução dos adolescentes no sentido da construção do seu papel de aluno do que um conflito geracional. No que tange ao ensino médio, as coisas se passam de maneira diferente. Nele, o potencial juvenil de expressar as questões cruciais da sociedade e de se constituir atores privilegiados da conflitualidade social começa a aparecer. Os jovens, mais capazes de gerir de forma autônoma as diversas lógicas de ação colocadas diante de si, passam a construir sua experiência juvenil na escola explicitando o conflito com os adultos. Há uma verdadeira concorrência entre os jovens e os adultos numa tentativa de horizontalizar as relações e de reivindicar mais autonomia por parte dos primeiros. Isso não quer dizer que os jovens não estabeleçam uma aliança estratégica com os professores e com a escola, que diz respeito à conquista do diploma e à realização do seu projeto de formação. Mas, no cotidiano, o conflito geracional propriamente dito ganha a cena, suas faces são diversas, e uma delas é justamente a cobrança de que os adultos façam jus ao seu maior poder: sejam bons professores, comedidos, equilibrados e tolerantes. Afinal, seu papel privilegiado na hierarquia de poder exige deles mais “trabalho”. A desmistificação da escolarização vai ocorrendo ao longo dos anos e atinge seu ápice no fim do ensino médio, momento em que os jovens se deparam com as poucas condições reais de mobilidade social ascendente, diante de uma escolarização já desvalorizada e pouco qualificada.
A escola como espaço que potencializa a violência
Observamos que a escola, embora sofra os efeitos do crescimento da violência e insegurança urbanas, não consiste numa “esponja” sem filtros do meio social. No seu interior, em contato com sua organização e modo de funcionamento cotidiano, são geradas uma série de práticas violentas. Isto fica claro quando observamos que os agentes de agressões agridem mais dentro e perto escola do que na rua ou em qualquer outro lugar. Suas práticas de agressão se dirigem mais aos alunos do que aos jovens de fora da escola.
Mais do que a escola enquanto “instituição”, as práticas dos agentes escolares e a dinâmica dos tempos e espaços no ambiente escolar acabam favorecendo situações de violência, que encontram solo fértil numa organização pouco regulada, onde as noções de justiça e autoridade são frágeis. Soma-se a isso a presença constante da força física no padrão de relacionamento interpessoal entre os adolescentes, sobretudo dos meninos, além de um sistema de valores que concede legitimidade para que a violência seja utilizada em casos que exigem uma reparação moral.
A escola se apresenta especialmente permeável a condutas juvenis por agregar uma grande população jovem em seu interior, mas, em contato com a organização e funcionamento escolar novas modalidades de práticas são geradas: é o caso das brincadeiras maldosas, muito típicas da dinâmica escolar. A importância da escola como espaço de expressão de um modo de ser juvenil remonta ao fato de que: “Nas sociedades avançadas, a criação de um espaço de vida autônomo pelas classes de idade mais jovens se realiza com a escolarização de massa.” (MELLUCI, p. 101, 2001) Os diferentes níveis de ensino no processo de escolarização consistem em importantes chaves para analisar a construção das experiências dos jovens e adolescentes diante de si e do mundo. No que tange à experiência com a violência, a escola parece assumir um papel central.
Observamos, ainda, que a relação entre jovens e adultos têm sido marcada por novas representações culturais, sem que sejam modificados os mecanismos do funcionamento escolar. Assim, o modelo de escola vigente não se apresenta favorável a este novo padrão de interação geracional. A autoridade escolar é vista em termos da capacidade de impor obediência aos estudantes e não como capacidade de convencimento e de influência na constituição da sua identidade.
Desse modo, o professor se vê constantemente frustrado em suas expectativas pois já não é “obedecido”. As ações da escola no sentido de reestabelecer a ordem e a autoridade em geral se resumem a tentar “encaixar” à força este jovem num papel de aluno, que ele já não aceita. Assim, as relações intergeracionais consistem em importante dimensão da vida escolar, ainda pouco investigada no que tange à temática da violência. Apontamos que o estudo das novas representações sociais e culturais inscritas no relacionamento entre jovens e adultos na sociedade em geral, e particularmente na escola, pode ser um caminho fecundo para uma melhor compreensão da violência em meio escolar.
Nota
1. Esta reflexão, em suas diferentes dimensões, foi inspirada em Peralva (2000), Dubet (1996), Dubet & Martuccelli (1996) e Martuccelli (1999).
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