quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O elemento " saber"

Relação com o saber: elementos para uma teoria

Bernard Charlot


Não existe "o fracasso escolar". É verdade que certos alunos não conseguem "acompanhar", não aprendem o que devem supostamente aprender, repetem o ano ou são orientados para modalidades curriculares desvalorizadas: esses fenômenos, rotulados de "fracasso escolar", são reais. Mas não existe algo chamado "fracasso escolar", que pudesse ser analisado como tal. Para estudar o "fracasso escolar", deve-se, portanto, construir um objeto de pesquisa.

A sociologia mostrou, há mais de 30 anos, que as posições ocupadas pelas crianças no espaço escolar são correlatas das posições dos pais no espaço social. Sobre essa base desenvolveram-se teorias da reprodução, que são sociologias; da diferença: pouco a pouco, impôs-se a idéia de que estudar o fracasso escolar é analisar diferenças de sucesso ligadas a diferenças sociais. Aí está uma via de pesquisa muito interessante, mas que não explica a totalidade dos fenômenos evocados pela expressão "fracasso escolar".

Neste livro, eu propus seguir-se outro caminho e analisar-se o "fracasso escolar" em termos de relação com o saber. Construir uma sociologia da relação com o saber implica a transgressão de um tabu: tal sociologia deve ser, de maneira deliberada e sem envergonhar-se, uma sociologia do sujeito. Ao constituir-se como tal, ela encontrará outras disciplinas que também trabalham sobre a questão do sujeito ou a do sentido. Uma sociologia da relação com o saber não pode pretender construir, sozinha, a teoria da relação com o saber, hoje em um estágio embrionário. Gostaria, nesta conclusão, de dizer algumas palavras a esse respeito.

Várias disciplinas podem contribuir para uma teoria da relação com o saber. Cada uma escolherá sua abordagem, mas todas elas devem ter presente a totalidade dos dados do problema, Qualquer que seja a disciplina, ela deve levar em consideração:

  • um sujeito,
  • em relação com outros sujeitos,
  • presa da dinâmica do desejo
  • falante
  • atuante
  • construindo-se em uma história, articulada com a de uma família, de uma sociedade, da própria espécie humana
  • "engajado" em um mundo no qual ocupa uma posição e onde se inscreve em relações sociais.

Quais serão as disciplinas suscetíveis de contribuir para uma teoria da relação com o saber?

Evidentemente, a psicologia está implicada nisso, pois ela se quer ciência do sujeito: a psicologia clínica (inclusive a psicanálise), a psicologia geral, como "metapsicologia", tal ou qual ramo da psicologia (notadamente,a cognitiva).

A sociologia também está implicada, enquanto ciência das relações sociais: a sociologia da educação, obviamente, mas, também, as sociologias que estudam a família, o trabalho... Não existe hoje nenhuma real sociologia do saber, pois essa questão só é abordada de maneira incidental, a propósito dos currículos escolares, da formação ou da produção científica. Torna-se urgente a constituição de uma tal sociologia, pois as sociedades contemporâneas são trabalhadas em profundidade pela questão do saber e, nelas, as relações sociais são sobre determinadas por relações de saber. Uma sociologia da relação com o saber seria um elemento importante nessa sociologia do saber; sua tarefa específica seria, provavelmente, a de mostrar como a relação com o saber se constrói em relações sociais de saber.

A filosofia e a antropologia, na medida em que se interrogam sobre o sentido e a condição do homem, as ciências da linguagem, seguramente, e a história, provavelmente, também poderiam concorrer para uma teoria da relação com o saber.

As ciências da educação estão implicadas, é claro, nessa teoria. Seu aporte poderia ser duplo. Por um lado, elas têm por vocação centrar-se diretamente na questão do "aprender", em suas múltiplas dimensões, que as disciplinas mais especializadas têm a tendência de desarticular. A esse respeito, elas poderiam exercer seu papel de ponto de encontro interdisciplinar, onde se cruzam, se interrogam e, às vezes, se fecundam questões e resultados oriundos de diversas fontes. Por outro lado, as ciências da educação são um ponto no qual se confrontam, em uma tensão constante, os conhecimentos, as questões axiológicas (que devemos fazer?) e a preocupação com as práticas (que podemos fazer, e como?) (Charlot, 1995).

Não obstante, não se trata de confundir tudo em um cafarnaum com o nome de "teoria da relação com o saber". Cada disciplina constrói e construirá suas questões, seus objetos e seus métodos. Cada uma poderia e deveria, no entanto, apropriar-se, integrando-as na sua própria lógica, das questões e respostas produzidas por outras. Talvez, assim, uma sociedade do homem pudesse ser construída, não enquanto ciência total, mas, sim, como espaço de "circulação entre as diferentes ordens de pesquisa" (Bruston, 1993). Tamanha ambição implica que os pesquisadores se interroguem também sobre sua própria relação com o saber.

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