terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A DROGA DAS DROGAS NA ESCOLA

Beatriz Carlini-Cotrim*

A importância que atribuímos à presença da droga em nossas relações não se deve tanto às propriedades químicas especiais dessas substâncias, mas sim às suas propriedades simbólicas, seu efeito cultural. As drogas permitem que delimitemos domínios sociais precisos e que organizemos nossa realidade ao redor de certas normas. JÚLIO C. ADIALA

A intensa preocupação dedicada ao tema do abuso de drogas entre os jovens vem atualmente constituindo um terreno propício para o desenvolvimento de ações preventivas improvisadas e a-críticas. A escola - pressionada para ser intransigente, eficiente e rápida diante de um problema que se acredita cada vez mais fora de controle - é palco privilegiado dessas atuações, algumas vezes quase grotescas, desenvolvidas por profissionais muitas vezes mais aflitos do que propriamente cientes do que estão fazendo.

A proposta deste artigo é o de oferecer ao leitor algumas ópticas alternativas para se pensar tanto o uso de drogas entre os jovens como as práticas preventivas feitas em seu nome, colocando-os numa perspectiva histórica, contextualizada.

Prevenção: em nome de que interesses?

O que hoje se tornou um campo científico demarcado por regras, princípios e paradigmas próprios - a Prevenção ao Abuso de Drogas por intermédio da Educação - tem como substrato a noção de que a sociedade civil pode e deve atuar nas intenções dos sujeitos sociais de consumirem substâncias que alterem suas consciências (que chamamos popularmente de drogas). A legitimidade de tal pressuposto é histórica, e se originou no fim do século passado, na Europa e EUA. Foi nesse período que alguns grupos sociais se lançaram à tarefa de demoverem indivíduos de usarem bebidas alcoólicas e constituíram o que ficou conhecido como Movimento de Temperança. As ações desenvolvidas por esses grupos centravam-se na organização de “casas de sobriedade” para aqueles que desejassem parar de beber, e pregavam, por meio de panfletos, palestras, conversas de casa em casa, a abstinência alcoólica. Outra ação de grande destaque desses movimentos era a luta legislativa, pela pressão política para a aprovação de leis que restringissem o acesso ao álcool. As escolas não eram o local de atuação desses movimentos, nem tampouco os meios de comunicação tinham papel de destaque na sua divulgação, dado o ainda limitado acesso da população às primeiras e o incipiente desenvolvimento tecnológico do segundo.

Os movimentos de temperança mais conhecidos entre nós são os norte-americanos, que no início do nosso século resultaram na famosa Lei Seca, tão presentes nos filmes sobre a máfia e o gangsterismo. Vários historiadores afirmam que os movimentos de temperança constituíram-se nos movimentos de massa de maior intensidade e importância em todo o século XIX, tanto que culminaram na aprovação de uma Emenda Constitucional (a Lei Seca), em um país que só alterou sua Carta Magna em questões de extrema relevância nacional (como a abolição dos escravos, por exemplo).

Seria possível discutir por muitas páginas essa fascinante parte da história norte-americana, mas, para as finalidades deste artigo, queremos nos centrar nas discussões sobre o sentido histórico desses movimentos (para mais informações sobre o tema ver Carlini-Cotrim, 1995).

Por quê os norte-americanos se organizaram socialmente para convencer as pessoas a mudarem seus hábitos alcoólicos? A resposta óbvia seria a de que o álcool vinha causando muitos problemas aos indivíduos e à sociedade, naquela época. Bem, de fato isso era verdade. Mas, estranhamente, não era novidade no momento em que o movimento eclodiu. Também, curiosamente, o problema não havia ficado menor quando os movimentos de temperança diminuíram de intensidade e a Lei Seca foi revogada. Por isso, no entender de estudiosos do assunto, afirmar que os movimentos de temperança foram ações movidas pela indignação pelos malefícios do álcool é proclamar somente meia-verdade. Estudando os processos sociais e políticos da época, eles apontam para outros três fenômenos importantes em curso, que não são decisivos em amplificarem as iniciativas dos militantes da temperança: primeiro, as bebidas eram consumidas pelos trabalhadores nos saloons, que também eram os locais disponíveis para a organização dos movimentos trabalhistas e dos sindicatos emergentes; segundo, o proclamado sonho americano de igualdade de oportunidades, liberdade e prosperidade tinha cada vez mais dificuldades em se sustentar diante de uma realidade inóspita, injusta e brutal para os setores depauperados do país; terceiro, o avanço tecnológico vivenciado nesse período exigia uma mão-de-obra rápida, ativa e... sóbria.

Assim é que os movimentos de temperança nasceram e prosperaram, inaugurando a legitimidade de ações contra as drogas nas sociedades contemporâneas: de um lado, contavam realmente com muitas pessoas preocupadas com o uso de álcool e seus malefícios, mas de outro, se constituíram também uma resposta histórica às necessidades externas à saúde e ao bem-estar dos indivíduos e grupos sociais. Os movimentos desta época contra o álcool foram sobretudo um movimento pelo fechamento dos saloons - o que é atestado pela principal aliança política que abraçou esta causa: o ASL ou Anti-Saloon League. Mais do que isso, o álcool foi sabiamente acusado pelos setores dominantes de ser o culpado por tudo aquilo não estava indo bem no país: desemprego, violência doméstica, pobreza, crianças na rua. O álcool foi eleito o bode expiatório da sociedade norte-americana, e a população foi instigada a elegê-lo como o principal inimigo a ser derrotado para se alcançar uma sociedade mais justa.

Outros exemplos históricos ilustram processos semelhantes ao já descrito:

Durante a década de 1870, a perseguição ao ópio (na forma de fumo) foi muito intensa no estado da Califórnia (EUA). Estudiosos sugerem, com base em fortes argumentos, que esta campanha antiópio foi a maneira mais eficiente de se estigmatizar e afastar os imigrantes chineses, disponíveis em abundância como mão-de-obra barata (e, portanto, concorrendo com os trabalhadores brancos) após o término da construção das ferrovias do Oeste americano e do esgotamento das minas de ouro. As leis antiópio desse período teriam sido, assim, destinadas a reprimir e controlar uma minoria antes útil, mas naquele momento indesejável.

Da mesma forma, a campanha contra a cocaína e a primeira lei contra ela (o chamado Harrison Act, assinado em 1914) visaram legitimar a repressão aos negros norte-americanos. Isso aconteceu a despeito do fato de os negros não se distinguirem dos brancos, naquele período, por um maior consumo desta substância. A associação entre negro e cocaína foi produto de uma campanha dos políticos conservadores sulistas, que disseminavam entre a população a idéia de que os homens negros, sob efeito da cocaína, tendiam a estuprar mulheres brancas. Ainda, vale a pena citar alguns poucos trabalhos nacionais que se preocuparam com indagações desse tipo: Adiala (1985, 1986) sugere que as ações contra a maconha empreendidas nas décadas de 1940 e 50 no Brasil só poderiam ser realmente entendidas se fosse levado em conta o papel que elas desempenharam na manutenção e no fortalecimento de estereótipos racistas; Anthony Henman (1983) atestou o papel legitimador de ações repressivas contra grupos indígenas desempenhado pela guerra contra a maconha na Amazônia; e Gilberto Velho (1981), estudando famílias de classe média da cidade do Rio de Janeiro, apontou o quanto as violentas reações de alguns pais de jovens diante do fato de seus filhos usarem maconha constituía uma forma de exorcizar do seio familiar estilos de vida que não consideravam adequados.

Em suma - e é isso que queremos resgatar para pensarmos na prática contemporânea de prevenção nas escolas - os processos históricos brevemente discutidos aqui sugerem : a) que movimentos contra drogas (quaisquer que sejam elas - álcool, maconha, cocaína, cigarro) raramente podem ser explicados somente pelo impacto desses hábitos na saúde das pessoas; b) que indivíduos genuinamente interessados em afastar outras pessoas das drogas acabam, muitas vezes, por contribuir de maneira possivelmente não-consciente para fortalecer interesses políticos com os quais talvez nem mesmo compactuem.

Assim, essas informações nos colocam diante de um desafio: será possível atuar no sentido de evitar que as pessoas se envolvam com drogas tendo como compromisso fundamental a promoção da saúde física e mental destas? Ou estaremos sempre - e irremediavelmente - comprometidos com jogos de poder que raramente se identificam com aquilo que estamos querendo garantir? Para discutirmos esses pontos, precisamos primeiro entender melhor o quadro contemporâneo em relação ao uso de drogas e às práticas preventivas desenvolvidas.

Prevenção ao abuso de drogas no contexto contemporâneo

Contemporaneamente, enfrentamos um clima internacional de grande preocupação em relação a substâncias proscritas por lei, como cocaína, crack, maconha e heroína. Há uma profusão de movimentos sociais contra essas substâncias e uma forte pressão da sociedade civil para que o Estado gaste proporção significativa de seu orçamento na repressão, educação e tratamento dos problemas associados ao uso dessas drogas. Também, convivemos com um gigantesco poder ilegal dos cartéis de produtores e comerciantes dessas substâncias, que não medem esforços para tornar seus produtos populares. Enfim, um contexto que guarda algumas semelhanças com o vivenciado durante a proliferação dos movimentos de temperança norte-americano do início do século.

Nesse sentido, a pergunta formulada para se discutir os movimentos contra o álcool no fim do século XIX cabe também atualmente: Por quê há uma intensa onda de movimentos organizados socialmente para convencer as pessoas a mudar seus hábitos de consumo de drogas? A resposta evocada a esta pergunta tem sido tão rápida quanto impensada - tem-se argumentado que estamos vivendo uma epidemia de uso e dependência de drogas sem precedentes na História. Bem, esta afirmação aparentemente incontestável não é assim tão pacífica entre estudiosos do assunto.

Tomando como exemplo o Brasil, a preocupação em relação à cocaína, crack e maconha deve-se em grande parte a uma amplificação desses problemas pelos meios de comunicação de massa, em detrimento de temas de maior impacto na saúde da nossa população (Carlini-Cotrim e cols., 1995). De maneira sistemática, essas drogas têm sido apontadas como as responsáveis pela violência urbana, desagregação familiar, delinqüência juvenil. Para quem estuda o assunto, é uma seleção curiosa da realidade, pois pouco ou nada se fala do fato de 90% das internações psiquiátricas por drogas no Brasil serem decorrentes de problemas com álcool (Noto e cols., 1997); que 50% das vítimas de morte violenta (homicídios, suicídios, acidentes de trânsito) na Região Metropolitana de São Paulo estavam alcoolizadas no momento do óbito (Carlini-Cotrim e Chasin, 1998) e que o consumo de bebidas alcoólicas no país vem crescendo - entre jovens, mulheres e homens adultos - numa taxa sem prescedentes, desde pelo menos 1995 (Carlini-Cotrim, 1998). Ainda, embora o consumo de cocaína e crack venha de fato aumentando, estudos apontam claramente que tal processo não acontece de forma explosiva, incontrolável, e, além disso, somente uma minoria daqueles que as usam se transformam em assassinos frios, promíscuos sexuais, farrapos humanos sem princípios, como é veiculado cotidianamente (Carlini-Cotrim e Rosemberg, 1991; Carlini-Cotrim, 1992). Em outras palavras, temos assistido a uma veiculação exagerada e caricatural de alguns fenômenos, e a omissão de outros de maior impacto para a saúde da coletividade. E novamente, no entender de sociólogos e historiadores, a visão de que todo esse movimento de “guerra às drogas” se deve somente ao sofrimento engendrado pelo envolvimento intenso com drogas proibidas é aceitar uma resposta simplista, uma meia-verdade.

Estudiosos como Reinarman e Levine (1989) defendem que, para um entendimento mais completo desse processo tão intenso de preocupação e atuação contra as drogas proibidas, é preciso recuperar o contexto político de transição das políticas de bem-estar social para as políticas neoliberais. Assim é que se assiste internacionalmente a um processo exemplarmente iniciado nos Estados Unidos de R. Reagan e na Inglaterra de M. Tatcher. Na proposta neoliberal, as políticas de proteção aos indivíduos vulneráveis social e economicamente vêm sendo extintas, a privatização de serviços estatais é crescente e a tônica da retórica política insiste em atribuir somente ao indivíduo a responsabilidade por seu próprio sucesso, abstraindo o papel do Estado de prover direitos básicos e universais como saúde e educação. A proposta neoliberal preconiza o Estado Mínimo, que aposta na competitividade do mercado como regulador social, o que acaba por produzir uma legião de excluídos socialmente, que passam a ser responsabilizados pelo seu próprio fracasso. Ou, como quer Reinarman, no neoliberalismo, os indivíduos com problemas são reconceituados como indivíduos que causam problemas.

No entender dos críticos da Guerra às Drogas, tudo isso casa perfeitamente com o que denominam de onda de histeria contra as drogas. O processo de exclusão do neoliberalismo gera revolta e contestação entre determinados grupos sociais, sejam eles minorias étnicas, desempregados, jovens de periferia, setores de classe média depauperados. Do ponto de vista do sistema, é preciso legitimar a repressão e o controle a esses grupos. E o espectro das drogas ilegais - veiculadas como produtoras do desespero, sofrimento extremo, decadência inexorável - tem se constituído um álibi sofisticado e eficiente (para uma leitura mais elaborada deste argumento consultar Pierucci, 1987; Carlini-Cotrim, 1992; Reinarman e Levine, 1989).

Mas apesar desse contexto tão propício para que a prevenção ao abuso de drogas seja um álibi para fins de controle político, há grupos de pesquisadores e agentes comunitários que defendem a pertinência e a possibilidade de se desenvolver ações preventivas comprometidas com a saúde da coletividade e desenvolvidas a partir da óptica dos grupos mais vulneráveis ao uso de drogas. E assim se colocar como alternativa à “guerra às drogas” de inspiração repressiva e controladora. É o que vem sendo chamado do enfoque da prevenção a partir da redução de danos.

Convivendo com a diferença: prevenção na perspectiva de reduzir os riscos associados ao uso de drogas

A principal marca que caracteriza os defensores da prevenção voltada para a redução de riscos é a oposição à guerra às drogas, que defende a erradicação das substâncias ilegais e a intolerância em relação a seus usuários. Os argumentos que sustentam essa oposição são basicamente dois e a ênfase em um ou outro vai variar de autor para autor.

Primeiro argumento: a postura de guerra às drogas é irrealista. Centrar forças no sentido de construir uma sociedade sem drogas é negar as evidências históricas de que todas as sociedades humanas sempre conviveram com o uso de algum tipo de substância psicoativa. Segundo Gossop e Grant (1990, pp.36-7), “a meta de uma sociedade sem drogas é geralmente inatingível. A magnitude dos esforços e dos recursos necessários à consecução desse objetivo seria tal que ele deve ser considerado não apenas irreal, mas também impossível de ser financiado. (...) optar por metas realistas não constitui somente um princípio de boa administração: é também uma forma de garantir que as ações preventivas adotadas signifiquem uma melhoria efetiva da situação”.

Segundo argumento: a guerra às drogas fere princípios éticos e direitos civis. Trabalhar no sentido de erradicar todas as formas de uso de drogas é ditar normas de comportamento e controlar os indivíduos e grupos sociais muito além do que é direito do Estado e das instituições. Trechos de alguns trabalhos ilustram bem essa posição: “A fundamentação filosófica da ‘guerra às drogas’ constitui o mais elementar proselitismo do tipo missionário. Ou seja, os opositores ao uso de drogas acham que sabem aquilo que os usuários deveriam pensar, sentir e fazer: eles pretendem impor seu próprio conjunto de regras para todas as outras pessoas” (Aldrich, 1990, p.544). Ou, numa versão mais ácida: “A histeria envolvida na guerra às drogas cria uma mentalidade orwelliana, em que perversas técnicas do tipo Grande Irmão são apresentadas como sendo medidas patrióticas para salvar a alma americana. De acordo com a minha própria formação, feita a partir de uma educação tradicional da Nova Inglaterra, seria considerado indigno, pouco americano, e mesmo perverso o fato de que oficiais do governo obriguem funcionárias da Marinha a se despirem e urinarem em vasos sanitários na sua frente, submetidas a uma observação direta” (Trebach, 1990, p.516 - sobre os exames de urina compulsórios para detecção de uso de drogas na Marinha).

Há ainda os que completam essa crítica afirmando que a política de combate a todo e qualquer padrão de uso de drogas fere o direito de as pessoas disporem livremente do seu corpo e da sua mente, e de poderem alterar seu estado de consciência pelo uso de drogas, se assim o quiserem (Henman, 1988). A partir dessas considerações, os teóricos dessa perspectiva alternativa defendem que é mais realista, eficiente e ético trabalhar no campo da prevenção com o objetivo de reduzir os riscos que as drogas e o seu abuso trazem freqüentemente aos indivíduos e à sociedade (The Royal College of Psychiatrists, 1987; Erickson, 1990; Van Vliet, 1990; Klitzner e cols., 1991). Como é epidemiologicamente evidente que as drogas lícitas são as responsáveis pelo maior número de problemas, o álcool e o cigarro são, quase sempre, os motivos de maior preocupação para aqueles que trabalham com o objetivo de redução de riscos. E, quando o assunto são as drogas ilegais, a possibilidade de transmissão da AIDS pelo uso de seringas contaminadas tem concentrado os maiores esforços preventivos. São exemplos de objetivos preventivos, nessa segunda linha: o uso moderado e circunstanciado de álcool, a não partilha de seringas para o uso de drogas, a restrição do uso de maconha a determinadas situações, a substituição de cigarros de alto teor de nicotina por cigarros light, a tentativa de retardar o primeiro contato com drogas, para que este aconteça quando o indivíduo já estiver mais estruturado. Pode ser também objetivo dessa linha preventiva tentar formar educacionalmente pessoas que acreditem que a opção mais segura é não usar drogas. A diferença é que, nesse enfoque, a abstenção total não é a única opção. Como afirma o documento do The Royal College of Psychiatrists (1987, p.179), “é perigoso fazer do melhor o inimigo do bom”, em relação à postura de fixar como objetivo exclusivo da prevenção a eliminação de todo e qualquer uso de drogas, independentemente da análise de cada caso.

Ou seja, os caminhos para se chegar ao objetivo de diminuir os riscos associados ao uso de drogas são bem distintos dos recomendados pelos defensores de um mundo livre das drogas. Enquanto este último declara que seus principais instrumentos são o temor às punições impostas pela lei e normas institucionais e o constrangimento moral, a prevenção voltada à diminuição de riscos aposta na capacidade de discernimento do cidadão bem-formado e informado e na possibilidade de que os próprios usuários recreativos e casuais, que queiram continuar usando drogas, possam aprender a consumi-las da maneira mais segura possível (pequena freqüência, pequenas doses, situação segura etc.).

Em termos de ações concretas, o enfoque de diminuição de riscos viabiliza-se, na prática escolar, por cinco modelos básicos: conhecimento científico, educação afetiva, oferecimento de alternativas, educação para a saúde e modificação das condições de ensino (Carlini-Cotrim e Pinsky, 1989; Hansen, 1990; Klitzner e cols., 1991).

• O modelo do conhecimento científico. Propõe o fornecimento de informações sobre drogas de modo imparcial e científico. A partir dessas informações os jovens poderiam tomar decisões racionais e bem-fundamentadas sobre as drogas.

• O modelo de educação afetiva. Defende que jovens mais estruturados e menos vulneráveis, do ponto de vista psicológico, são menos propensos a se engajar num uso problemático de substâncias psicoativas. Constitui-se, neste sentido, num conjunto de técnicas que visa melhorar ou desenvolver a auto-estima, a capacidade de lidar com a ansiedade, a habilidade de decidir e interagir em grupo, a comunicação verbal e a capacidade de resistir às pressões de grupo.

• O modelo de oferecimento de alternativas. Procura propiciar aos jovens sensações de expansão da mente, crescimento pessoal, excitação, desafio e alívio do tédio, ou seja, highs, por outros meios que não o consumo de drogas. As atividades que cumpririam o papel de propiciar essas sensações variam segundo os autores. Klitzner e cols. (1991) relacionaram algumas propostas americanas: estruturação de pontos comerciais dirigidos e operados por jovens, sistema de orientação escolar de alunos mais jovens pelos mais velhos, atividades esportivas desafiadoras, atividades artísticas não-diretivas etc.

• O modelo de educação para a saúde. Educar para uma vida saudável é a proposta central desse modelo. Assim, orientar para uma alimentação adequada, para atividades não propiciadoras de estresse, para uma vida sexual segura, e até para a escolha correta da pessoa que dirigirá o carro num passeio de grupo compõem um currículo onde a orientação sobre os riscos do uso de tabaco, álcool e drogas também se fazem presentes (Klitzner e cols., 1991). Muitas vezes são discutidos temas mais gerais, como poluição, trânsito e perigo atômico, visando formar um estudante com consciência de algumas características não-saudáveis do mundo que o cerca e com capacidade de escolher uma vida mais saudável para si e sua comunidade (Carlini-Cotrim; Pinsky, 1989).

• O modelo de modificação das condições de ensino. Defende que a vivência escolar, particularmente a da pré-escola e do ensino elementar, vão ser fundamentais para um desenvolvimento sadio do adolescente e adulto (Klitzner e cols., 1991). Nessa medida, a ênfase não recai na prevenção ao abuso de drogas, mas na formação global de um jovem saudável. Suas estratégias pretendem constituir-se, assim, em ações de prevenção à delinqüência, a patologias mentais e também ao abuso de substâncias psicoativas. Sua intervenção é intensiva, precoce e duradoura, apresentando grande tendência para envolver pais e comunidade em suas atividades (Klitzner e cols., 1991). Este modelo tem cinco vertentes básicas, freqüentemente combinadas na prática interventiva:

Modificação das práticas instrucionais. Propõe várias iniciativas, como mudar as técnicas de ensino, tornando-as mais prazerosas e eficientes; modificar o conteúdo curricular para aproximá-lo mais da realidade do aluno; melhorar a relação professor-aluno, oferecendo maior oportunidade ao estudante para manifestar suas dúvidas e anseios.

Melhoria do ambiente escolar. Procura mudar a estrutura organizacional e decisória da escola, dando mais espaço para os estudantes, seus pais e a comunidade participarem de seu planejamento. Combinam-se, assim, inovações no campo da estrutura decisória com o estabelecimento de atividades extracurriculares abertas a todos, programas de auxílio para achar trabalho remunerado aos estudantes etc.

Incentivo ao desenvolvimento social. Bastante parecido com o anterior, mas com uma ênfase particular nas relações pessoais entre os próprios alunos. Propõe atividades que visam incentivar a cooperação, a preocupação de uns com os outros, a solidariedade mútua.

Oferecimento de serviços de saúde. Oferece serviços de saúde gratuitos, dentro da escola, especialmente voltados para a necessidade dos adolescentes (ênfase, por exemplo, em problemas de aprendizado, de alimentação, estéticos, de estresse, ou de orientação sexual).

Envolvimento dos pais em atividades curriculares. Procura envolver os pais na vida acadêmica de seus filhos. Isto tem sido proposto de duas formas: tarefas para casa que devem ter participação dos pais e workshops de pais, convocados pela escola, para trabalhar com questões relativas ao relacionamento pais/filhos e desempenho escolar.

Como pode ser visto, há um grande leque de escolhas para atuar numa perspectiva de diminuição dos riscos associados ao uso de drogas. No entanto, embora diversificadas em termos de ações concretas, todas se caracterizam por tentar oferecer subsídios e propiciar vivências, seja no campo do conhecimento ou do afeto, para que o estudante possa ser mais estruturado, consciente, questionador. Nesse sentido, as ações não visam resultar, obrigatoriamente, numa rejeição a qualquer contato com drogas. Acredita-se, somente, que quanto mais realizado e consciente estiver, menores são as chances de o jovem se envolver patologicamente com drogas. Reconhece-se, ainda, principalmente nas várias vertentes de modificação das condições de ensino, que a intervenção não precisa necessariamente visar o estudante: pode e deve tentar também modificar o ambiente em que ele vive. Admite-se, assim, que uma escola inadequada e injusta pode constituir um fator propiciador do abuso de drogas, deslocando a discussão para o campo da política educacional e do questionamento pedagógico. Em suma, substitui-se o enfoque disciplinador da guerra às drogas por uma ênfase na formação do jovem, tido como capaz de discernir e de optar, e como alguém que tem o direito de ser informado idoneamente sobre questões que dizem respeito a seu cotidiano.

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  • Docente do Depto. de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Formada em Ciências Sociais pela USP, é doutora em Psicologia Social pela PUC-SP, tendo desenvolvido pós-doutoramento na Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston (Massachusetts, EUA). Foi pesquisadora do CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas - da Univesidade Federal de São Paulo, de 1985 a 1997. É também autora de diversos trabalhos publicados em revistas internacionais e várias dezenas em periódicos nacionais. É, ainda, vice-presidente da ABEAD (Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Outras Drogas).

CARLINI-COTRIM, Beatriz. Drogas na escola : prevenção, tolerância e pluralidade. In: AQUINO, J. R. G. (org.). Drogas na escola : alternativas teóricas e práticas. São Paulo : Summus, 1998.

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